Actualmente, a ilha conta com produções médias, de 8 a 10kg por colmeia, estes valores segundo o entrevistado representam uma descida acentuada. “Chegamos a ter 30 a 40kg por colmeia” e um dos factores para esta diminuição é o facto de existirem de forma permanente equipas a roçar nos limites da estrada. “Temos um comparativo interessante, em 2020, no ano da pandemia, houve uma produção muito maior de mel, uma vez que existiam menos pessoas a roçar e menos pessoas a cortar flores e plantas”, comenta José Gaspar.




No passado dia 10 de Outubro, a CASERMEL em parceria com a Junta de Freguesia da Fajã de Cima e a Escola Básica 1 e Jardim de Infância Cecília Meireles, promoveu uma iniciativa de sensibilização pela sustentabilidade e biodiversidade ambientais.
A CASERMEL – Cooperativa de Apicultores e Sericultores de São Miguel promove uma iniciativa de sensibilização pela sustentabilidade e biodiversidade ambientais. A acção acontece hoje, pelas 10h30 num terreno da Fajã de Cima, na Rua João Vieira Jerónimo, perto do Centro Social e Paroquial de Nossa Senhora de Oliveira.
Ao nosso jornal José Pedro Gaspar, Presidente da Direcção da cooperativa explica o objectivo do evento.
“Em primeiro lugar a sensibilização dos alunos da escola. Depois temos a questão ambiental, queremos envolver o poder autárquico, porque são eles que gerem grande parte destes espaços. Queremos também criar uma sensibilização em termos sociais, para que as pessoas abracem esta causa, a defesa dos colonizadores, a sustentabilidade ambiental e a biodiversidade”, confessou o director ao falar dos objectivos do evento.
A acção desenvolvida hoje, tem ainda mais dois objectivos em simultâneo segundo disse, isto é,prestar atenção à gestão de espaços verdes urbanos e a sensibilizar para a proteção dos polinizadores. Acrescenta ainda que “temos um papel muito importante de sensibilização com as crianças”.
A actividade é resultado de uma parceria entre a CASERMEL, a Junta de Freguesia da Fajã de Cima e a Escola Básica 1 e Jardim de Infância Cecília Meireles. Na actividade serão plantadas sementes de plantas floríferas e melíferas. O projecto pretende chamar à atenção para a questão de gestão dos espaços verdes urbanos.
O local, que estava a ser alvo de depósito de entulho e lixo, foi cedido pela Junta de Freguesia da Fajã de Cima.
A CASERMEL, é uma cooperativa que abrange apenas a ilha de São Miguel. Neste momento dedica-se à apicultura, sendo que a sericultura foi um projecto inicial aquando a sua fundação em 1989.
“Neste momento, dedicamo-nos apenas à apicultura. Temos cerca de 120 a 130 apicultores, num universo de 190 na ilha”, revelou o presidente da associação.
Informa também que a apicultura não se destina apenas à criação de abelhas, preocupam-se com aspectos como a sustentabilidade ambiental e a biodiversidade.
José Pedro Gaspar destaca que, aos dias de hoje, que em Portugal, e em particular nos Açores, existe uma quebra acentuada de polinizadores, que são na sua generalidade insectos. Dentro deste grupo, existem as abelhas, que têm um papel fundamental na polinização e biodiversidade.
A polinização – processo que pólen das flores migra da parte masculina para a feminina – representa cerca de 80% dos alimentos que são consumidos, uma vez estes têm de ser polinizados.
A inquietação com as abelhas surge, segundo o apicultor por serem “polinizadores de excelência”. A sua polinização é feita de forma selectiva, “ela quando sai da colmeia, ela pousa numa flor, de seguida vai pousar apenas em flores da mesma espécie até regressar à colmeia”.
Para proteger estes insectos, o presidente afirma que é necessário existirem mais flores, e que a sua ausência pode representar um problema para a comunidade. “Se tivermos falta de polinizadores, temos falta de frutos. E se tivermos falta de frutos, não temos alimentos”, sublinha.
A espécie de abelha presente na ilha, é semelhante à Apis Mellifera Iberiensis, uma abelha primitiva da Península Ibérica. Segundo o próprio, a proteção desta espécie também pode ser realizada através da majoração de um valor a quem proteger a espécie.
“Esta abelha no fundo, percebeu em que contexto ambiental é que está. Ela vai colocando criação à medida que percebe os recursos que existem, para não desequilibrar o exame”, confirmou o director.
Contudo, o animal têm sido alvo de algumas ameaças, como a utilização de produtos químicos na agricultura e doenças que afectam o ser. “Há cerca de 1 ano, tivemos a entrada de um predador de abelhas, a Vespa Velutina (Vespa Asiática), mas estamos a trabalhar para travar o seu avanço”, destacou. Existem ainda outros perigos para o animal, mas que não existem na ilha, como fez questão de salientar.
“A melhor proteção que nós podemos dar à abelha, é sensibilizar crianças e fazer acções práticas para termos flores e plantas para que se possam alimentar”, reforça o presidente da cooperativa.
Não somos auto-suficientes
Quanto à produção de mel na região, o apicultor informa que actualmente, a ilha conta com produções médias, de 8 a 10kg por colmeia, estes valores segundo o entrevistado representam uma descida acentuada. “Chegamos a ter 30 a 40kg por colmeia”, sublinha.
Um dos factores para esta diminuição é o facto de existirem de forma permanente equipas a roçar nos limites da estrada. “Temos um comparativo interessante, em 2020, no ano da pandemia, houve uma produção muito maior de mel, uma vez que existiam menos pessoas a roçar e menos pessoas a cortar flores e plantas”, comenta José Gaspar.
Declara também que aquilo que a região produz não é suficiente para a ilha se tornar auto-suficiente do produto e nem para exportar. “Somos completamente deficitários em mel”, é como define o momento actual da produção de mel.
De modo a contribuir para uma maior biodiversidade e polinização, o representante da CASERMEL acredita que devem plantadas flores, sobretudo flores melíferas.
Na ilha produzem-se dois tipos de mel, o Mel dos Açores, que é definido pelo entrevistado como um “mel mais clarinho, mais leve e único no mundo”. É um mel de incesso, fruto da sua utilização como abrigos. O outro mel, é o mel multiflora, que conta com diversas espécies em simultâneo na sua produção.
Para o futuro, a cooperativa pretende proceder à construção de uma melaria destinada à produção e transformação de mel. “Pretendemos que no futuro próximo, os apicultores, que são cooperadores da CASERMEL, possam também fazer o processamento”, confirma o presidente da CASERMEL.
“Nós como instituição, limitamo-nos a duas dimensões: de formação e acompanhamento dos apicultores e de disponibilização de materiais para a prática da actividade. Queremos dar um passo maior, que é conseguir produzir e colocar os produtos dos nossos cooperadores no mercado”, revelou o presidente sobre planos futuros da cooperativa.
O apicultor espera também que ocorrem mudanças no sector, espera que aconteça uma maior sensibilização, que haja um maior envolvimento das pessoas na defesa da polinização e que seja possível executar mais intervenções com mais entidades públicas.
“Depois temos outros projectos em curso, com particulares ou empresas. Temos um projecto em desenvolvimento chamado “Adopte uma Colmeia”, em que empresas, as escolas ou famílias possam adoptar uma colmeia. Os nossos cooperadores garantem a manutenção da colmeia e depois fornecem o mel a quem adoptou. É como se fosse uma atitude de mecenato”, divulgou José sobre um dos projectos em fase de desenvolvimento da instituição.
Ao ser questionado sobre a importância de sensibilizar a comunidade para a biodiversidade e a polinização, o entrevistado comentou que “há que ter uma preocupação quando nós dizemos que os polinizadores estão em risco. Há uma importância muito grande das pessoas se sensibilizarem porque parece que, de vez em quando nós tiramos dois dias por ano para falar sobre estas questões. Nos outros 363 dias, as pessoas esquecem-se e nada é feito. Isto tem de passar a ser uma preocupação de primeira linha”.
Acrescentou ainda que “é necessário transmitir a mensagem às pessoas que não é só uma questão estética, mas é sobretudo uma questão de sustentabilidade ambiental e proteção da biodiversidade”.
“Podemos citar a frase do Albert Einstein que diz que se as abelhas desaparecessem, a nossa existência seria muito curta. É esta a mensagem que quero deixar, de vamos todos acordar para este problema e que precisamos de pessoas que cuidem mais dos jardins. Devemos considerar os nossos espaços públicos como se fossem autênticos jardins, temos de ter flores e de gostar de as ter”, concluiu José Pedro Gaspar. DP